Entreguei
o BMW M3 Frozen Black no escritório da importadora em São Paulo e uma música
não me saía da cabeça. "Cheiro de pneu queimado, carburador furado,
coração dilacerado", martelava a letra de Carro Velho, que ficou
famosa na voz de Ivete Sangalo quando ela ainda liderava a Banda Eva.
Eu não gosto de axé e não nutro especial simpatia por "Vevete". Por
que, então, esse hit não me deixava em paz? Por que, dias depois, a voz da
baiana continuava a me perseguir? A resposta, creio, está em "pneu
queimado" e "coração dilacerado". Não, o BMW M3 não tem
carburador.
Fato é que o aroma de borracha frita no asfalto e a dor no coração ao devolver
esse belo exemplar são as lembranças mais latentes de um veículo que foi
chamado por aí de "o carro do Batman" e "o automóvel mais
malvado do Brasil".
Sim,
visual e mecanicamente, ele é muito malvado. A exclusivíssima pintura em preto
fosco (não é envelopamento, pelo amor dos meus filhinhos), as rodas escuras aro
19 e os fortes vincos aerodinâmicos — característicos da divisão Motorsport da
BMW — fazem dele um sujeito mal-encarado, pronto pra te dar uma porrada na
fuça. Força para isso, este carro certamente tem: o motor V8 aspirado gera 414
cv de potência e 42,9 kgfm de torque. É suficiente para fazer um pequeno
planeta pegar no tranco.
"Te
encaro, rapaz"
Decidido a não me intimidar, entrei no BMW M3 Frozen Black confiante.
— Eu te encaro, rapaz. Não adianta botar essa banca pra cima de mim.
Chave no contato, aperto o botão de ignição. Um estrondo sacode o carro. A
rotação sobe, depois desce ligeiramente e se estabiliza. Ainda assim, os oitos
pistões furiosos, capazes de deslocar 4 litros de gasolina, fazem o M3
chacoalhar mesmo enquanto está parado. Do escapamento quádruplo sai um silvo
sinistro. Medo.
Antes de pegar a estrada, lembro-me de alguns detalhes importantes. Há apenas
quatro desses carros no Brasil, então nem pense em arranhá-lo. Lavar, só com
água, nada de sabão. O M3 Frozen Black também está equipado com o Competition
Package, que rebaixa a suspensão em 10 mm e deixa os sistemas de controle mais
permissivos/divertidos. E não acabou: só aquele teto de fibra de carbono, que
reduz o peso e abaixa o centro de gravidade, provavelmente vale mais do que a
sua casa.
A primeira impressão ao volante, no entanto, é comedida. Da até vontade de
tirar um sarro do carrinho. O câmbio automatizado de sete marchas e dupla
embreagem trabalha civilizadamente. A aceleração em condições normais é boa,
mas nada incrível.
— Cadê sua malvadeza toda, seu BMW? Fica botando banca e não entrega.
Hora do Espanto
Como
disse Ivete Sangalo, "é perigoso provocar aquilo que você não
conhece". Mentira. Ela nunca disse isso. Mas eu disse, logo depois de
levar uma metafórica porrada na fuça. O segredo para acordar a besta do pneu
queimado e coração dilacerado é um botãozinho com a letra M colocado no
volante. É ele que diz pros sistemas eletrônicos do carro que o cara que está
guiando é um perfeito maluco.
Pressionado, esse portal do Apocalipse M detona uma batalha de cavalos de
potência. Parece que todos os 414 animais são soltos ao mesmo tempo. Você pisa
no acelerador, o câmbio reduz imediatamente, o ronco metálico vai para as
alturas e o carro, que antes estava ali, não está mais. Os seus olhos ficaram
lá pra trás, presos pela impiedosa inércia.
"Números, números, quero números", diria Ivete. Mentira, ela jamais
diria isso. Mas eu conto mesmo assim. O 0 a 100 km/h é feito em 4,5 segundos,
ou 0,2 segundo a menos do que o M3 normal. A linha vermelha de corte do motor
fica pra lá das 8.300 rotações. Se você não sabe o que isso quer dizer, dê uma
olhadinha no painel do seu carro popular. Pode chorar agora.
Enquanto chego a uma curva e reduzo as marchas por meio das
"borboletas" no volante, essa coisa chamada transmissão automatizada
de sete velocidades e dupla embreagem realiza, por conta própria, um punta-taco
de fazer inveja a pilotos profissionais.
Nesse cenário, não resisto a entrar em um túnel do Rodoanel, em São Paulo, e
afundar o pé no acelerador, elevando as rpm ao limite. O som é diabólico.
Queria tê-lo gravado para usar como toque no celular.
Me dá um, Ivete
A
essa altura, você provavelmente já percebeu que o BMW M3 Frozen Black é
exclusivo, malvado e divertido. Deve ajudar ainda mais se eu disser que, com os
sistemas eletrônicos ligados, é quase impossível tirá-lo da trajetória em uma
curva. Ele anda colado ao chão, e seu cérebro sofre mais deslocamento lateral
do que os pneus do carro.
Honestamente, pouco me importa se o banco do passageiro é estreito para um
ocupante com as cadeiras mais avantajadas. Também não estou nem aí para a dor
na perna direita causada pela falta de apoio, perceptível apenas se você for
muito alto. E as pancadas da suspensão nos buracos de São Paulo? Não dou a
mínima.
O que eu quero, afinal, é cheiro de pneu queimado e coração dilacerado. Para
obter isso, desligo os controles de tração — nunca faça isso em uma via pública
— e piso fundo. A fumaça significa menos alguns milímetros de borracha sobre a
roda, mas alguns momentos a mais de alegria na vida.
O preço por tudo isso é astronômico: o BMW M3 Frozen Black custa R$ 443 mil.
Dona Ivete, como forma de compensar por esse maldito hit que não sai da minha
cabeça, bem que poderia me dar um.